
Futebol é coisa de mulher. E nem os provocadores que insistem em dizer o contrário fazem as garotas que trocaram as bonecas pela bola mudarem de idéia. As meninas que aproveitam o recreio no colégio para “bater uma bolinha” e pedem aos pais para treinar no time da escola não estão preocupadas no que os garotos dizem, mas nos gols que elas vão fazer.
Estela D.Monfort, 13 anos, começou a jogar bola aos 8. “Meu pai disse que eu tinha jeito”, lembra. Ela treina duas vezes por semana com meninas de 11 a 15 anos e já chega correndo ao local - usando a camisa do time da escola, caneleiras e meião.
Durante o aquecimento, se a bola sai pela lateral é Estela quem corre atrás. Atenta às instruções do treinador, a pequena jogadora bate o pé ao saber que ficará de fora nos primeiros minutos do coletivo. O professor acha graça. Não demora muito, Estela entra em quadra. Ajuda na defesa, volta para o ataque e… gol.
O apoio em casa foi o que levou a estudante Gabriela C.Borges, 16 anos, a praticar futebol. “Cresci ouvindo meu pai dizer que eu era boa de bola”. No colégio, Maíra treina para um campeonato misto que reúne 26 times, sendo dez de meninas e um de professoras e funcionárias. “Ela tem facilidade para armar as jogadas, domina os passes e ainda tem um bom chute”, avalia o professor Sandro G.Amaral.
O professor Sandro garante que dá para comparar o jogo das meninas com o dos meninos em qualidade. Responsável pela formação do primeiro time feminino da escola, em 1990, ele diz que a bola não assusta mais as garotas. “O preconceito está acabando. Tem muito menino perna-de-pau”, diz.

Para a geração anterior à de Gabriela, o futebol entre meninas não era encarado com tanta naturalidade.
Gabriela só tem um problema quando o assunto é futebol: comprar a chuteira - de número 34. “Não existe hoje no mercado uma chuteira de campo fabricada especialmente para as mulheres. Para complicar, só encontro o meu número na seção infantil”.
No vestiário, antes ou depois de entrar em campo, elas conversam sobre tudo. De contusões e arbitragem até TPM. Gabriela prende os cabelos e acerta os fios mais rebeldes com spray. Vaidosa, usa esmalte vermelho para esconder unhas roxas e relembra com bom humor a sugestão de um integrante da comissão técnica para domar as madeixas. “Ele pediu para eu usar mousse. Achei estranho. Não ando com mousse dentro da mochila”.
Vivian, 15 asnos, é uma das mais antigas do grupo. A adolescente, que bate bola desde os 7 anos, afirma que não foi fácil vencer a resistência da mãe, que queria que ela fosse professora, e da avó, que chegou a trancá-la em casa para que ela não fosse treinar. “Uma época eu estava meio mal no colégio e ela passou a implicar ainda mais com o futebol. Um dia, saiu de casa e não deixou a chave. Ela diz que foi por esquecimento, mas tenho certeza que foi para me manter longe das quadras”, lembra.
E se a torcida quer saber o xingamento que mais irrita uma jogadora de futebol? “Gorda. É a mesma coisa que xingar a mãe ou a irmã no futebol masculino”.